24/01/2007 12:28
sobre o filme
O filme "Viva o Cinema Brasileiro!" é uma construção coletiva, seguindo várias linhas teóricas do cinema. Desde o cinema-verdade e passando pelo cinema-imperfeito, mas com os dois pés [melhor, o tripé: produção, distribuição e exibição] no Cinema Novo, mais precisamente no que foi apontado por Glauber Rocha na "Estética da Fome" [citada no manifesto do Cinema Processo].
Dessa construção eu convidei artistas que julgo estarem, quase todos, envolvidos com um pensamento do global-localizado e local-globalizado. A partir daí apresentei o projeto do filme a esses artistas e, dentro das limitações orçamentárias, passamos a cruzar a disponibilidade de tempo de todos, com vistas a termos um mínimo de tempo com o máximo de dedicação exclusiva à realização do trabalho.
Para existir como obra primeira do cinema processo, o filme "Viva o Cinema Brasileiro!" teria [no meu entendimento e orientação] que ter poucos e bem definidos pontos de partida: um percurso definido; um tempo definido e somente uma ação [que chamei de primitiva]: uma única personagem com somente uma ação. A partir desse ponto tudo teria que ser construído com os moradores das localidades inseridas no percurso.
Assim surgiram Luzia [a filha do coroné], sua volta ao sertão vinda da França, as irmãs [mais novas esperançosas e alegres; a mais velha rancorosa e triste], o pai que a obriga a um casamento forçado, a amiga e os momentos de loucura e lucidez da personagem. História criada e "vivida" pelas pessoas simples do sertão, Luzia se depara com a sua volta ao sertão, o casamento, o limiar entre a sanidade e a loucura [cena maravilhosa].
O cinema como intervenção social. Em uma das comunidades a entrega da atriz Quitéria Kelly foi tão intensa que sua personagem, Luzia, é confundida, de verdade, com a padroeira do lugar...padroeira que não existia e passou a ser "Santa Luzia"...acreditas????...Uma experiência que interfere diretamente nas vidas das pessoas dos lugares e dos profissionais envolvidos na realização do filme. Ficção-realidade. Realidade-fantástica. Fantasia-realista.
A equipe percorreu três comunidades da região do semi-árido do Rio Grande do Norte [Serra da Tapuia/ Barros Preto/ Bom Sucesso], numa época de seca intensa e com temperatura elevada. A cada um dos doze dias em campo a equipe tinha que entrar em contato com os habitantes, trazê-los para a proposta do filme, identificar boas propostas dramáticas a partir de conversas em grupo, problematizar as sugestões, roteirizar as idéias, determinar quem viveria as personagens e gravar. Tudo no mesmo dia. Enquanto isso os músicos iam compondo e, em alguns casos, executando as músicas durante os ensaios mesmo.
O filme Viva o Cinema Brasileiro! é a saga de uma equipe de cinema, embrenhada no sertão do Brasil, em fazer um filme com pessoas que jamais botaram os pés numa sala de cinema. No meio dessa empreitada está a história de Luzia, surgida da sabedoria inerente a qualquer pessoa simples em contar histórias: no Brasil e no mundo.
enviada por Buca Dantas
24/01/2007 12:19
IMAGENS







por Itamar Nobre/ Alexandre Santos
enviada por Buca Dantas
24/01/2007 11:57
ficha técnica
2006 [ano de realização]
80 minutos [duração]
8723 cine
Buca Dantas [direção]
Quitéria Kelly [atriz]
Geraldo Cavalcanti [roteiro/ assist. direção]
Henrique Fontes [preparação elenco/assist. direção]
Mathieu Duvignaud [direção de fotografia]
Riccard8 San Martini [direção de arte/figurino]
Nalva Melo [maquiagem]
Voldney Ribeiro [cenografia]
Kayonara Souza [produção executiva]
Juliana Costa [produção musical]
Fernanda Gurgel [montagem]
Trilha sonora
Valéria Oliveira/ Luis Gadelha [música-tema O sonho pede socorro]
Mad Dogs
Rosa de Pedra
Babal
Galvão Filho
SeuZé
Peixe Coco
DuSouto
Cacau Arcoverde

enviada por Buca Dantas
24/01/2007 11:45
folder das pre-estréias

enviada por Buca Dantas
24/01/2007 11:39
CINEMA PROCESSO

Cinema Processo
Passados mais de quarenta anos de A Estética da Fome [Glauber Rocha/1965] vimos o cinema brasileiro entrar em ascensão, decadência, letargia, retomada e agora num acomodamento em torno das leis de incentivo e editais. O nosso Cinema [como forma artística de expressão] resiste na obra de um ou outro realizador, com a atividade se concentrando [seguindo a lógica do Mercado] nos centros urbanos de maior atividade econômica e financeira.
Não se trata de solicitar status, deixar registrado ou exigir reconhecimento da existência de obras cinematográficas em todo o Brasil. Não existe [e nem há necessidade de existir] quem ou o quê possa dar ciência sobre essa questão. Filmes de ficção e documentários são atualmente ocupação de espectadores, críticos, técnicos e artistas por todo o país. Os avanços na tecnologia [com o conseqüente barateamento nos custos de produção] é uma das principais causas da proliferação do cinema no Brasil.
Entretanto, nossos filmes de vitrine quando não imitam tentam fugir da gramática cinematográfica das Metropolis. Não conseguiram, não conseguem e não vão conseguir. A caneta que usam tem a cor definida, o papel desenvolvido, os movimentos dos membros educados sob as receitas, as conexões neurolingüísticas engendradas e o sorriso de lerda satisfação filial intima[da]mente ligados às Metrópolis.
O nó não está na herança/filiação eurocêntrica, nem em Hollywood. Está sempre na imitação, em seguir as estradas criativas desenvolvidas sob características que não refletem a nossa organização social. O resultado: obras acéfalas ambientadas em estereótipos de favelas, sertões, guetos, ruas e diálogos, lugares e situações que de tão inverossímeis e risíveis passam do ponto do ridículo.
Não se trata de ruptura, mas de continuidade. Não há necessidade de reinventar o Cinema em cada filme. Os elementos constitutivos de uma orquestração cinematográfica estão dispostos, em desenvolvimento contínuo e cada vez mais à disposição daqueles que tenham a ousadia de trilhar esse caminho. Continuidade no sentido de dar seguimento na utilização dessas ferramentas: conceituais, estéticas e materiais.
Evidente que toda criação não parta do zero, mas a partir de conceitos e determinações histórico-pessoais de quem lança a proposta da realização do filme. Os sujeitos que o realizam estão marcados por motivações impregnadas de valores aos quais podem dar continuidade reafirmando ou contestando-os. Continuar no sentido de seguir em frente, de construir a estrada e indicar um novo caminho e não retornar ao começo da jornada. E uma vez com as mãos na ferramenta, faz-se necessário que se as use.
A idéia de realizar um filme independente do grupo que chamo de independente/dependente surgiu no início de 2004. Naquela época eu e Geraldo Cavalcanti percebemos a possibilidade de realizarmos uma obra em linguagem cinematográfica nordestina, sertaneja, brasileira e universal. Na totalidade porque coletiva e engendrada por profissionais de formação diversificada, ambientada numa região estereotipada ao extremo e que teria a sua existência construída [sob a lógica do paternalismo artístico] com quem não tem o direito de fruir cinema: os não-incluidos.
Surge a idéia de Cinema Processo [Viva o Cinema Brasileiro! e Mariposa Blanca], entendido não como forma nem estética, mas logística de produção em aberto. Um sistema que possibilite realizar filmes com o mínimo de dinheiro e o máximo de qualidade artística que o ambiente social/profissional determinado permita. Não se trata de uma alternativa possível, mas de uma empreitada. Só será possível tanto quanto for firmado o compromisso com cada um dos atores/sujeitos necessários para a realização do filme, de que não se trata de realizar um filme, mas de realizar um filme que tem que ser realizado.
Assim sendo, o Cinema Processo aponta as condições materiais necessárias para tornar uma obra cinematográfica realizável, com ou sem muito dinheiro. Evidente que não se possa prescindir de sua existência [do dinheiro], mas de minimizar ao máximo a sua ingerência na decisão de se realizar um filme.
Cinema Processo é a constatação de que é possível realizar filmes com características verossímeis aos atores sociais de determinada região/sociedade/povo. Uma obra, um regimento dos artistas locais de vanguarda, um acordo entre esses técnicos e artistas de que a referida obra tem que impor a sua existência, a conexão das redes de interesse para que essa obra tenha vida. O processo de realização fazendo parte da própria obra para se fazer cinema no sertão, no Brasil e em qualquer lugar do mundo.
Os não-incluidos estão convidados a se incluírem. O filme Viva o Cinema Brasileiro!, obra primeira do Cinema Processo, tem a força do verbo e a euforia da aclamação. Um Viva! ao cinema nordestino, brasileiramente brasileiro, no seu atrevimento por buscar furar o bloqueio. Um filme criado, encenado e protagonizado por pessoas simples e comuns ao universo local/mundial. Um filme com a marca da cor, da areia, da música e da noite do sertão/deserto/oásis.
Ousar sonhar,
Ousar viver.
Natal/RN
dezembro 2006
Buca Dantas
Viva o Cinema Brasileiro!
diretor
Geraldo Cavalcanti
[Assistente de direção/roteirista de Viva o Cinema Brasileiro!]
O momento sublime da criação, a espontaneidade no processo criativo, são algumas das maravilhas com que o cinema processo nos beneficia. Testemunhar aquelas pessoas que vivem nas regiões mais insípidas deste país; muitas delas nem sequer ouviram falar de cinema, vê-las interpretar as suas próprias histórias, numa relação de jogo com a vida, foi mágico.
riccard8 san martini
[Figurinista/direção de arte de Viva o Cinema Brasileiro!]
O "cinema processo" mudou a minha forma de criar, de trabalhar, de tolerar, de me adaptar e de viver! O "cinema processo" me causou dor, calor, sede, fome, vermes, angustia, saudades, mágoa, lagrimas, euforia, desapego, liberdade, entusiasmo, vida interna, amor e ação! E viva o cinema brasileiro!
Luiz Gadelha
[Músico convidado para a trilha sonora de Viva o Cinema Brasileiro!]
O diretor, o diretor de cena, o diretor de fotografia, o cenógrafo, o roteirista, a produção, o elenco, os músicos, os auxiliares, o motorista; todos escreviam estrofes desse poema, que leva um pouco de cada um, do imaginário, da realidade, das frustrações, das conquistas nesse processo humano de fazer cinema. Foi o que mais sentir: humanidade, solidariedade, equipe, família; como são aqueles que ficam juntos a qualquer custo, a qualquer sonho que pedir por socorro.
Kayonara Souza
[Produtora executiva de Viva o Cinema Brasileiro!]
O processo do filme foi de completa TRANSFORMAÇÃO. Transformação da idéia para a obra produzida, da realidade dos agricultores para o sonho, da mente e coração de toda equipe, dos conceitos já engendrados para o renovável, da paisagem seca para a produtiva, da falta de verba para o excesso criatividade e competência. E o processo continuará a cada exibição do filme, a cada aprovação ou reprovação.
Mathieu Duvignaud
[diretor de fotografía de Viva o Cinema Brasileiro!]
Le cinéma processus, un art du mouvement libre.
Le cinéma processus nest pas du cinéma traditionnel à proprement dit, sest une volonté créatrice en évolution durant un temps donné. Sest un cinéma performance, nous avons une ligne directrice puis des fluctuations.
Le cinéma processus est une dualité entre création et mutation. On va sintéresser aussi bien à ce qui se passe devant que derrière la camera : lintérêt se situe dans linstant et dans le résultat. On ne fait pas un film déterminé avec ce processus, on est plus proche du documentaire que de la fiction. Les créateurs sont les acteurs. Mais le final est encore du cinéma.
Artistiquement proche de la photographie, mon travail est tourné principalement autour dune recherche intitulée lArt du Hasard, ou la rencontre poétique entre lobjet, le temps et le hasard.
Lors de ce processus cinématographique notre objectif était de laisser venir à nous chaque moment sans discrimination, nous étions ouvert à tout. Le cinéma processus était ainsi très proche de ma propre recherche dans laquelle la création se fait sans volonté de forme finale, simplement une idée, un temps et un chemin.
enviada por Buca Dantas
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